Eu aprendi um pouco de francês, foi por isso que eu entendi o que ele tinha falado coup de foudre, mas eu não sabia direiro o que isso quer dizer, e ele estava olhando tão bonito dentro do meu olho, que eu não tive coragem de perguntar: como é? Mas mal eu cheguei em casa fui correndo ao dicionario, RAIO, mais raio por quê, meu Deus? DESGRAÇA INESPERADA, será que ele leu alguma desgraça no meu olho? AMOR À PRIMEIRA VISTA, aaaaaaaaaaaagora sim! é isso, é claro que é isso!! ah, que coisa mais linda, então foi amor a primeira vista que ele sentiu por mim?! igualzinho, igualzinho feito eu senti por ele! Estava fazendo um sol incrivel no Rio ( era janeiro, sabe) e era a primeira vez que eu ia a Copacabana. Sentei num banco pra olhar o mar e nem me lembrei de olhar pro lado pra ver quem e que tinha sentado no banco também, e so depois de muito tempo é que eu virei a cabeça, justo quando ele ia virando também, e foi
so a gente se olhar que meu olho engatou no dele, e não deu mais pra desengatar, e a gente ficou assim so se olhando, e foi so depois de um tempo enorme que ele lembrou duma coisa importante:
- Ja pensou se alguem senta aqui entre nós dois?
- Que horror.
A gente chegou mais pra perto um do outro, e depois de muito tempo ele falou:
- Que sol, hein?
- Pois é.
- Sabe que ele te faz brilhar todinha?
- É?
- É.
- Ah.
- Chega um pouco mais pra cá.
Eu cheguei.
- Deixa eu sentir tua pele, a tua mão?
Eu deixei, ele apertou um pouco a minha mão, e foi ai que ele falou:
- Coup de foudre é uma coisa muito misteriosa, não é?
Eu ia perguntar como e? mas nao tive coragem, e então perguntei:
- Por quê?
- Veja bem eu estou aqui sentado pensando, sabe o que? calculando como e que vai ser o andar terreo de um predio que...
- Você por acaso, é arquiteto?
- Por acaso por quê?
- Porque... arquitetura faz meu coração bater mais forte.
Que graça que ele achou?
- E mesmo?
- E, sim.
- Ele esta batendo forte agora? - E o olho dele desceu por mim pra assuntar se o meu coração batia forte ou não. Eu fiz que sim.
- Mesmo ainda sem saber se sou arquiteto ou nao?
- Ele ta achando que voce é, sim.
- Ele errou: eu nao sou nao.
- Voce e o que entao?
- Um homem que nao consegue tirar o olho duma moça que sentou perto dele. Perto mas nao tao perto assim...
E sem pensar eu cheguei mais pra perto, que coisa, hein? que atração.
- Quantos anos voce tem?
- Eu tenho 18, e voce?
- 29.
- Hmmm!!
- Ta me achando velho?
- Quase.
Saiu sem querer. Ele riu. Eu perguntei pra desfarçar:
- Conta mais de voce?
- O que voce quer saber?
- Tudo, o teu nome?
- Antônio.
- Antônio? Antônio. Antônio! Ah, que bonito.
A gente se olhando. O mar batendo na praia.
- Porque voce tava calculando como e que vai ser um terreo... terreo de que?
- Dum predio que vai subir ali, olha.
- Em cima da casa?
- Ela vai abaixo.
- Ah, que pena, tao simpatica!
- Não adianta: nao da dinheiro. Mas o predio que vai subir ali... - e ele assobiou, tao bem assobiado! ... esse sim vai valer a pena. E o andar terreo nem se fala! eu sou isso.
- Isso o que?
- Eu planejo o jeito de quem tem dinheiro ganhar mais dinheiro. Quer coisa mais importante? Olha so pr'aquela casa.
Olhei.
- Fecha os olhos.
Fechei.
- Imagine o terreo.
Imaginei o Antônio chegando ainda mais perto de mim, e me abraçando, e me dizendo que eu brilhava todinha, e eu abri os olhos e vi ele de perfil olhando pra casa, ah, que perfil! ah, que Antônio! E quando eu abri o dicionario e vi que era amor a primeira vista que ele tinha sentido por mim, eu ainda fiquei muito mais apaixonada do que eu tinha me apaixonado a primeira vista.
Lygia Bojunga Nunes